A corrida global pela inteligência artificial está prestes a entrar em uma nova fase, com um projeto que pode se tornar o maior investimento em infraestrutura tecnológica da história. Segundo reportagem do The Wall Street Journal, a Nvidia está em negociações avançadas com a OpenAI para oferecer uma garantia financeira de cerca de US$ 250 bilhões, permitindo que a criadora do ChatGPT alugue um megadata center de 10 gigawatts que a SoftBank está desenvolvendo no sul de Ohio, nos Estados Unidos [citation:1][citation:5].
Um projeto de proporções colossais
O custo total do projeto, incluindo os chips necessários para equipar a infraestrutura, é estimado em mais de US$ 500 bilhões [citation:2][citation:12]. Para se ter uma ideia da magnitude, um único gigawatt de energia pode abastecer centenas de milhares de residências. O campus, que ocupará terrenos federais no antigo complexo de enriquecimento de urânio de Portsmouth, perto de Piketon (Ohio), contará com uma capacidade de geração elétrica equivalente, principalmente por meio de gás natural [citation:10]. A primeira fase do projeto, com cerca de 800 megawatts, tem previsão de conclusão para 2028 [citation:1][citation:7].
A engenharia financeira bilionária
A estrutura do negócio revela uma engenharia financeira tão ousada quanto a própria construção física. Os US$ 250 bilhões em garantias fornecidas pela Nvidia cobririam o aluguel do data center e o financiamento da dívida, mas não incluiriam os chips da própria Nvidia que equiparão o local [citation:1][citation:11]. Paralelamente, a fabricante de chips também discute um financiamento separado para a compra de seus processadores, que pode chegar a impressionantes US$ 350 bilhões [citation:9][citation:12].
Essa garantia seria crucial para tranquilizar os credores, reduzindo o custo de capital do projeto, especialmente considerando que a OpenAI ainda não possui classificação de crédito de grau de investimento [citation:10][citation:11]. O modelo, no entanto, cria uma relação circular: a Nvidia respalda o cliente OpenAI, que por sua vez utiliza os recursos para comprar grandes quantidades de chips da própria Nvidia [citation:10].
Movimentos estratégicos e interesses por trás do negócio
Para a OpenAI, um acordo representaria o primeiro passo para controlar sua própria infraestrutura, reduzindo a dependência de locações de gigantes como Microsoft, Amazon e Oracle [citation:1][citation:8]. Para a Nvidia, seria uma forma de garantir a demanda por seus chips por muitos anos, consolidando sua posição dominante no mercado de hardware para IA [citation:2][citation:5]. O projeto é também um marco para a SoftBank e para o governo dos EUA, que o saudou como uma grande vitória estratégica [citation:2].
A energia para abastecer o complexo será controlada pelo governo dos EUA e financiada separadamente pelo Japão, como parte de um acordo comercial recente que inclui o compromisso de Tóquio de investir US$ 33 bilhões em uma usina de gás natural associada ao projeto [citation:1][citation:12]. O secretário de Comércio dos EUA, Howard Lutnick, está envolvido na decisão sobre quem terá acesso a essa energia [citation:7][citation:10].
- Garantia da Nvidia: US$ 250 bilhões para o aluguel e financiamento do data center [citation:1]
- Financiamento para chips: Negociação separada de até US$ 350 bilhões para a compra de processadores Nvidia [citation:9]
- Investimento total: Mais de US$ 500 bilhões, incluindo a infraestrutura e o hardware [citation:2]
- Capacidade total: 10 gigawatts de energia [citation:5]
- Primeira fase (800 MW): Previsão de conclusão em 2028 [citation:1]
- Parceiros estratégicos: Nvidia, OpenAI, SoftBank, governo dos EUA e Japão [citation:5][citation:7]
A disputa pelo ativo mais escasso: energia e crédito
Embora a OpenAI seja a principal candidata a ocupar o campus, outras gigantes da tecnologia também estão de olho no projeto. Empresas como Anthropic, Microsoft e Google mantiveram conversas com o secretário Lutnick nas últimas semanas sobre o local [citation:5][citation:12]. A competição, agora, não se limita mais apenas aos processadores mais avançados, mas também ao ativo que se torna cada vez mais escasso: a energia disponível e o terreno conectado a redes de alta capacidade [citation:10].
A OpenAI, inclusive, já elevou seus compromissos previstos de computação para aproximadamente US$ 750 bilhões antes de 2030, um salto em relação à estimativa anterior de US$ 600 bilhões, o que explica a urgência em garantir instalações próprias ou contratos de longo prazo [citation:10].
O novo tabuleiro da inteligência artificial
Este megaprojeto revela uma mudança decisiva no setor: a corrida da IA não é mais financiada apenas com lucros presentes, mas sustenta-se sobre a promessa de que uma demanda futura gigantesca justificará investimentos igualmente gigantescos [citation:10]. As gigantes da tecnologia estão cada vez mais recorrendo aos mercados de dívida e ações para financiar infraestrutura de IA, com gastos que devem ultrapassar US$ 700 bilhões somente em 2026 [citation:7][citation:9].
Riscos e alertas no horizonte
Apesar do entusiasmo, analistas já emitem alertas. A crescente interconexão financeira entre fabricante de chips, cliente e financiador gera preocupações. Se a demanda por serviços de IA crescer abaixo do esperado, a OpenAI poderia se ver presa a contratos de energia, chips e aluguel difíceis de rentabilizar. A Nvidia, por sua vez, assumiria perdas potenciais tanto como fornecedora quanto como garantidora [citation:10].
O temor de uma supervalorização tecnológica já chegou ao debate do mercado financeiro, onde a IA se tornou um dos principais pilares dos grandes índices americanos. Quanto maior o financiamento cruzado, mais rápido qualquer ajuste no setor pode se propagar [citation:10]. O projeto de Ohio, portanto, não confirma a existência de uma bolha, mas evidencia que o futuro da IA passa necessariamente por capacidade de processamento, controle de infraestrutura, escala global e, cada vez mais, por uma complexa engenharia financeira.